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Parte da Crónica: Politiquices

As autárquicas

Escrito por: Bárbara Leston-Bandeira 35

No dia a seguir às eleições há algumas coisas bastante claras para mim -  e que já tinham ficado nos últimos dias de campanha.

As autárquicas

A democracia continua a funcionar. As pessoas - homens, mulheres, novos, velhos, de todas as raças e credos - continuam a ir às urnas e a votar. Era bom se fôssemos mais a expressar o que queremos: a taxa de abstenção continua demasiado alta, o que, na minha opinião, revela que as pessoas não querem saber da política - e isso não é bom.

Quem quer ser livre e, sobretudo, que os outros continuem a ser livres - os outros, que não partilham as nossas crenças, não têm a mesma cor de pele - tem medo que a democracia perca contra o populismo. Mas ainda não foi desta, e podemos continuar a acreditar que a humanidade ainda não se perdeu completamente.

No dia a seguir às eleições há algumas coisas bastante claras para mim -  e que já tinham ficado nos últimos dias de campanha. Quando as pessoas vão votar para quem manda no seu concelho, na sua freguesia, a cor partidária, o nome do partido não é a coisa mais importante. Não são pessoas que só vêem na televisão, são vizinhos, colegas de escola, pessoas da terra. Nem todos os que se candidatam subscrevem a 100% a ideologia do partido sob cuja bandeira são candidatos.

Outra clareza que surge destas eleições é que a alternância partidária continua viva e de boa saúde - não é uma má notícia, pelo contrário, é a democracia a funcionar. É bom que o poder alterne, é bom que as pessoas manifestem a sua insatisfação e escolham outra pessoa (e partido) para escolher os destinos da cidade, vila, aldeia, freguesia.

As eleições autárquicas não podem ter a mesma leitura das eleições legislativas - as pessoas sabem distinguir do orçamento do Estado da calçada que precisa de ser reparada, da falta de segurança nas ruas, do excesso de lixo ao lado das suas casas.

Tenho algum receio que se faça essa transposição directa, porque, ao que parece, a extrema direita cresce no parlamento mas não cresce assim tanto ao lado da minha (sua, nossa) casa. No entanto, localmente, as pessoas que assinam pela extrema direita, não são todas de extrema direita. Encontraram aí um espaço para poderem fazer algum bem. Mas a nível nacional, far-se-á essa leitura. O aumento de vereadores, algumas câmaras ganhas são vitórias da extrema direita.

A esquerda anda pelas ruas da amargura - mas nem tanto assim. A CDU continua a ter autarquias, o PS mostrou que ainda é poder, pelo menos localmente. O Bloco está em risco de extinção, e, ao que me parece, o Livre está a ocupar esse espaço - a moderação ainda ganha ao extremismo, mais uma boa notícia.

Mas as boas notícias podem ter os dias contados. As próximas legislativas - se tudo correr bem, daqui a 3/4 anos - podem voltar a pintar a imagem do aumento do medo, da revolta, do apontar do dedo, da falta de empatia. É preciso não baixar a guarda, é preciso não desligar, não desistir. Essencialmente, perceber a política, o espaço que ocupa,  a importância que tem. Temos de ser todos participantes da democracia - por mais imperfeita que seja, é o sistema que temos e que funciona. Hoje, estamos no rescaldo de mais uma batalha ganha, mas a guerra contra o populismo e a desinformação tem de continuar. Conto consigo?

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