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Parte da Crónica: Diletâncias

Portugal é poda

Escrito por: Pedro Araújo 82

Mudaram-se os tempos, caíram governos, matou-se um Rei, estalaram umas carabinas, caíram umas sapatadas, subiu um professor de Coimbra, e um Estado que se chamou de “Novo” ganhou raízes e envelheceu mal.

Portugal é poda

Recordo-me de ter lido, há tempos, o relato de uma viagem pelo Minho por um autor oitocentista, lamentando este a relação depredatória dos lavradores com árvores, invariavelmente sentenciada pela lei do machado. Sem disfarçar o snobismo característico dos seus contemporâneos, este autor cujo nome me foge à memória, sugeria estarem os lavradores empenhados no holocausto arbóreo quando, estou convicto, agiam tão somente sob a imperiosa necessidade de expansão dos terrenos agrícolas e de recolher umas canhotas para aquecer o caldo.

Mudaram-se os tempos, caíram governos, matou-se um Rei, estalaram umas carabinas, caíram umas sapatadas, subiu um professor de Coimbra, e um Estado que se chamou de “Novo” ganhou raízes e envelheceu mal. A propósito de árvores, a política desse tal Estado foi a plantação de pinheiros; encostas tipicamente cobertas por vegetação rasteira foram populadas com pinheiro-bravo, mais tarde, eucalipto, encontrando por vezes focos de resistência na população local (vide "Quando os lobos uivam", obra de Aquilino Ribeiro).

Já nos anos 80/90, perdoem-me a melancolia, ouvia contar sobre a apanhada de azeitona onde eram severamente advertidos aqueles que partiam um galhinho que fosse ao varejar a oliveira, tal era a sua importância; falava-se desta e daquela laranjeira pela qualidade do seu fruto, cuidava-se. A oliveira é hoje uma aristocrata arruinada, reduzida a uns paus raquíticos nos jardins desse país; da apanhada da azeitona restam uns infelizes troncos donde tentam fugir uns galhitos angustiados.

Nos dias que correm - é esta imagem em pleno Cais de Gaia prova do crime - munidos de moto-serras e demais tenebrosos instrumentos, jardineiros e cantoneiros destes municípios estão mais preparados do que nunca para limpar o sebo a estas malandras que teimam em verdejar.

Não façam de mim um reacionário.

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