Guns N' Roses em Coimbra 2025 — Uma banda que foi boa, jamais será má
Um alinhamento que parecia um best of. De "Welcome to the Jungle" a "Sweet Child o’ Mine", passando por "November Rain" e até uma visita a "Slither" , a ultima meia hora trouxe surpresas como “I use to Love her”.
Dizem que o tempo não perdoa. Eu, que navego há anos estas águas revoltas da música, confirmo: o tempo é um velho filho da puta, mas nem sempre ganha. Ontem, em Coimbra, vi o improvável — uma banda que desafiou o calendário como quem cospe na cara do destino.
Os Guns N’ Roses entraram no Estádio como quem entra num velho navio batizado de "Because What You Want & What You Get Are Two Completely Different Things”— um casco marcado pelas décadas, mas ainda capaz de rasgar mares com a fúria de outros tempos. Axl Rose, esse capitão de voz ferida, provou que não é preciso cantar como aos vinte para incendiar uma multidão. A voz não é a mesma, não tem aquela estridência ácida, nem o corpo tem a energia e agilidade, mas durante três horas ,sim três, como quem desafia o próprio fôlego dos deuses, a banda tocou sem pausas, sem concessões, sem pedir licença. Um desfile de hinos que resistiram à corrosão do tempo, tocados com a garra de quem sabe que o palco é o último grande navio onde se pode ser livre. Um mar revolto que é a plateia, retribuiu com cânticos e punhos no ar, como marinheiros saudosos a celebrar o regresso dos seus piratas. E não eram apenas nostálgicos agarrados a memórias de outros verões: havia jovens a tentar perceber a razão de uma banda de velhos ainda encherem um estádio com 40 mil pessoas.
A estreia como timoneiro, nos tambores, Isaac Carpenter, trouxe uma lufada de ar fresco, que deu às velas um novo impulso .
Este vosso escriba esteve lá, sim. De carne, osso e All Stars, diluído no meio da multidão. Não como quem revisita glórias passadas, mas como quem testemunha o milagre de uma banda que recusa afundar-se na vulgaridade do esquecimento. Um alinhamento que parecia um best of. De "Welcome to the Jungle" a "Sweet Child o’ Mine", passando por "November Rain" e até uma visita a "Slither" , a ultima meia hora trouxe surpresas como “I use to Love her”.
Há quem diga que os Guns N’ Roses já não são o que eram. Pois bem. Os Guns n` Roses e o Axel, tal como eram, não trouxeram boas recordações a Portugal. Estes sim. Invadiram o palco, sem atrasos, como piratas, que respeitam o mar de gente que navegam. E o que nos deram ontem foi a prova viva de que uma banda que foi boa jamais será má.
Porque há uma diferença entre juventude e grandeza. A primeira é passageira. A segunda, meus caros, é como o mar: muda de cor, de humor, de maré — mas nunca deixa de ser o mar.
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