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Parte da Crónica: Diletâncias

Sirāt

Escrito por: Pedro Araújo 6

"A rave não é aqui mero escapismo, é um ritual celebratório para o qual erguem um sistema de PA em pleno deserto; totens sónicos donde é emitido um pulsar telúrico, denso e visceral."

Sirāt

Visualmente espantoso, Sirāt é um filme hispano-francês de 2025 realizado por Óliver Laxe, uma obra sobre perda e dissolução, mas também é mais do que isso: é um enigma hipnótico; uma inquietante experiência cinematográfica de agressão sensorial.

Nesta narrativa árida, as personagens são despojadas de biografia: Luis, homem espanhol de meia-idade, acompanhado pelo seu jovem filho Esteban e a sua adorável cadelinha, viajam até ao sul de Marrocos onde, algures no deserto, decorre uma rave na qual esperam obter informações sobre a filha desaparecida. Este frágil trio é assim deslocado do seu habitat, intimidado por geografias inóspitas, indagando os ravers, dos quais apenas sabemos que são criaturas marginais, refugiadas da civilização - "esta foi a família que eu escolhi", confessa o estropiado e feliz Bigui.

A rave não é aqui mero escapismo, é um ritual celebratório para o qual erguem um sistema de PA em pleno deserto; totens sónicos donde é emitido um pulsar telúrico, denso e visceral. Da civilização apenas temos notícias fragmentadas sobre a irrupção de uma terceira guerra mundial, evento que se impõe como pano de fundo pré-apocalíptico, instaurando no filme a impressão de tragédia iminente.

Fica claro que o desaparecimento da sua filha é, afinal, fuga; também ela escolheu outra família, e Luis precisa de dar sentido à perda, talvez pedir perdão - a soturnidade do semblante sugere urgência de um desenlace. A dada altura, um exército, braço armado das estruturas políticas, irrompe, dispersando a tribo, atirando-os para uma jornada de sobrevivência, quebrando qualquer protocolo que este filme sugerisse manter com o espectador.

Sirāt é uma Odisseia invertida, mas enquanto Odisseu, homem que tudo aguenta, fez uso da sua argúcia para escapar aos ardis que enfrentava, regressando para Penélope, reencontrando-se, Luis dispersa-se, parte de casa em direcção ao caos, ao abismo, ao vazio do imenso deserto que se afigura como ruína das estruturas civilizatórias - não é um retorno, é a instauração da incerteza. Um perturbador sinal dos tempos.

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