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Parte da Crónica: Zandi, a ilha perdida

Ozzy, o Imortal

Escrito por: Capitão Nautilus 70

O ritual. O exorcismo coletivo. A catarse amplificada a 200 decibéis.

Ozzy, o Imortal

Ozzy morreu.

Pronto, está dito. Mas ninguém se iluda: não foi ele que nos deixou. Fomos nós que ficámos para trás.

O Príncipe das Trevas partiu, e com ele foi-se um pedaço marado, glorioso e barulhento da história da música. Não do rock apenas — da música toda. Porque Ozzy Osbourne não foi só um vocalista, nem sequer apenas um Superstar. Foi um ícone, com sotaque de Birmingham, um profeta louco que berrava verdades em cima de muralhas de distorção.

Ele sobreviveu a tudo: drogas, demónios, reality shows, cirurgias, e até mesmo à sua própria banda. O que não conseguiu sobreviver foi ao tempo. Mas sejamos sinceros, é extraordinário, quase um milagre, que o tempo tenha demorado tanto.

Quem era Ozzy? Era o homem que mordeu um morcego em palco, sim — mas era também John Michael Osbourne, o miúdo pobre de uma cidade industrial que usou o caos como combustível e fundou, com os Black Sabbath, o heavy metal. Não o género musical mas o fenómeno cultural.

O ritual. O exorcismo coletivo. A catarse amplificada a 200 decibéis.

Depois foi expulso. Por ser “demasiado louco” para os Sabbath. Sim, Leiam essa frase outra vez...

A solo, reinventou-se. Cercou-se de guitarristas virtuosos, gritou contra o mundo, e foi adorado por milhões. “Crazy Train”, “Mr. Crowley”, “Mama I’m Coming Home”… Canções que são hinos, relíquias, espelhos do seu próprio labirinto interior.

Mas mais do que tudo, Ozzy foi humano. Com tudo o que isso tem de trágico e de belo. Riu, tropeçou (quase sempre), e caiu. Levantou-se, pediu desculpa e repetiu tudo. E amou profundamente o palco, os fãs, a Sharon (essa santa padroeira do caos organizado), os filhos e, vá-se lá saber como, a vida. Prova disso foi a teimosia com que se agarrou a ela e não quis partir sem um último concerto de despedida.

Ontem, Ozzy Osbourne morreu. Mas é impossível acreditar que desapareceu. Ele já era lenda e mito antes de ser cadáver. Já era eterno antes de ser memória. Diz-vos este vosso capitão que já navega estes mares há uns bons anos e foi disso testemunha pelas décadas de 80 e 90.

Hoje, o mundo parece mais silencioso. E não é porque os amplificadores se calaram — é porque o grito mais louco de todos cessou. Só que, na verdade, enquanto houver uma guitarra afinada em drop D, um miúdo a aprender a fazer o sinal d os chifres ou um morcego com medo, o nome de Ozzy e a sua música continuará a ecoar.

Obrigado, Ozzy.

Que o teu barco siga agora pelo rio Estige com o mesmo estrondo com que abriste os portões do inferno do Rock. E se o barqueiro reclamar, morde-lhe um dedo. Só para não se esquecer de com quem está a lidar.

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