Portugal, Pátria de Escritores Não Lidos
Em Portugal escreve‑se muito. Lê‑se pouco. Há mais autores do que leitores, mais prémios do que tiragens e mais lançamentos do que estantes vazias. Entre estatísticas desconfortáveis, vaidades literárias e uma fé quase religiosa na escrita, esta crónica olha para o estado da literatura portuguesa com ironia, melancolia e algum amor, porque só se critica aquilo que ainda importa.
O país que deu ao mundo Camões, Pessoa e Saramago tem hoje mais escritores por metro quadrado do que sobreiros, o que não é coisa pouca. Toda a gente escreve e em tudo o que é canto: Seja em notas do telemóvel, em murais do Facebook com 17 hashtags, ou em crónicas como esta, toda a gente tem algo a dizer. Num tom que vai do lamento existencial ao lamento pela existência dos demais. Dizem que cumprimos a nossa missão neste mundo, depois de ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Ao que parece esta última parece ser a mais fácil, a avaliar pela quantidade de livros publicados todos os anos. O problema é que segundo o Instituto Nacional de Estatística, cerca de 56% dos portugueses não lê um único livro por ano. O que nos leva a uma conclusão matemática: o número de escritores já ultrapassou o número de leitores certificados. Escrevemos todos para ninguém. Contudo, publicamos mesmo assim, como quem manda mensagens numa garrafa e quem não tem mar, lança-a no rio.
Só no último ano, a DGLAB atribuiu mais de 700 novos prefixos de ISBN, muitos deles a microeditoras, editoras independentes e autores cheios de fé (e Mbway). É perfeitamente plausível que uma nova editora surja a cada semana , muitas vezes fundada para publicar um único livro.
Prémios literários? Mais de cinquenta estão ativos em Portugal. E todos os anos aparecem novos: promovidos por câmaras municipais, juntas de freguesia, fundações privadas, escolas básicas e até cafés que, em vez de karaoke, optam por sessões de poesia. É bonito. É anedótico. É Portugal.
As livrarias. as que sobreviveram à pandemia, à FNAC e ao Kindle , vivem entre dois polos: os romances históricos com títulos do tipo A Costureira de Auschwitz e A Criada, e os livros de autoajuda com pandas na capa e verbos no infinitivo: Ser, Viver, Amar, Resiliar ou os livros dos gurus de empreendedorismo e do milhão em menos de seis meses. O espaço para o romance literário nos hipermercados é menor do que o reservado para prateleiras de vinhos. É mínimo, e com promoções semanais.
Temos, é verdade, vozes que continuam a fazer vibrar a literatura portuguesa: Valter Hugo Mãe, com os seus textos entre o terno e o desconcertante; Dulce Maria Cardoso, que escreve como quem diz a verdade devagar; Afonso Cruz, sempre com um pé na filosofia e outro na ficção absurda. E, claro, Lídia Jorge, que resiste ao tempo como uma árvore teimosa na beira-mar.
Mas não chega. A literatura nacional, hoje, vive sobretudo da performance. O escritor deixou de ser um ser misterioso e oprimido pelo peso da criação. Hoje, ele tem Instagram. Ele faz vídeos a explicar o “processo criativo”, bebe café de especialista em slow motion e escreve posts com a hashtag #euestouaqui. As feiras literárias que se multiplicam como cogumelos.
No fundo, não há crise. Há só ruído. A literatura em Portugal está viva, mas é como uma banda de garagem que tem bons músicos, péssimos microfones e um público que prefere ver desporto em vez de comprar um disco.
E o mais trágico (ou glorioso) disto tudo? Continuamos a escrever. Contra tudo e contra todos. Contra o mercado, o algoritmo e a falta de leitores.
Não é por nada. É apenas um excesso de realidade a transbordar. E enquanto esse excesso continuar a cair sobre as teclas, Portugal será, por muito tempo ainda, a pátria de escritores não lidos.
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário