Isto não é o que isto é
Bravo! É com notável maestria, sem necessidade de recorrer a qualquer sofisma (...)
O Chega, fazendo uso da imagem de seu líder, André Claro Ventura, de braços cruzados (pose Remax, talvez até tenha em carteira umas águas-furtadas em Chelas), espalhou espalhafatosos cartazes em terras de lusitânia dando-nos conta que “isto” não é “o Bangladesh”. Estalou a polémica, inflamaram-se opiniões, jorraram artigos, choveram acusações de xenofobia. Parece-me um exagero. Trata-se, afinal, de um pertinente esclarecimento em matéria de geografia, ora não fosse aquela gente ciosa de claras demarcações fronteiriças. De resto, só gente de má-fé pode interpretar tal truísmo como um aviso segregador a quem não se conforma aos rigorosos ditames da mais estreita portugalidade - não serei eu a fazer tal desfeita.
Todavia, se me permitem meter o bedelho em matéria de tráfego rodoviário, recomendo ao Chega alguma prudência quando plantar cartazes em rotundas, aparato urbano que em hora de ponta pode muito bem assemelhar-se às de Daca (capital do Bangladesh, também não sabia), não obstante serem as viaturas conduzidas por distintos automobilistas, ainda por cima encartados pela autoridade da mobilidade e dos transportes ”disto”, incapazes de abordar uma rotunda na via errada.
Também não posso deixar de notar, confesso a minha euforia, pois os tenho em grande consideração, que reagiram com eloquência às injustas acusações acima aludidas, na voz de Cristina Rodrigues, deputada e indefectível militante do partido após uma suave transição do PAN para o Chega, que veio denunciar a iniquidade de se considerar crime uma coisa que é absolutamente verdade, pois, nas palavras dela (https://www.facebook.com/share/v/1BXdFkr4mS/?mibextid=wwXIfr) “Isto é Portugal, portanto isto não é o Bangladesh”. Bravo! É com notável maestria, sem necessidade de recorrer a qualquer sofisma, que contorna as infâmias do Ministério Público, organismo pródigo em sarilhos jurídicos, adornando com a mais pertinente aparelhagem conceptual ao pedir emprestado à filosofia a noção de “liberdade de expressão política”, amiudadas vezes mal empregue, mas Cristina Rodrigues não desperdiçou este tiro; foi na mais cândida liberdade que o Chega escolheu esta frase para engalanar os seus oportunos cartazes. Finalmente, rematou Cristina com um desenlace inesperado, “isto”, afinal, é Portugal - já desconfiava.
E fiquei também a saber que não são cartazes, são outdoors! Não cessam os esclarecimentos - que aula!
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