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Parte da Crónica: Voyeur

Gaza: Likes, Lágrimas e Lobbies

Escrito por: Raul Anís de Sousa 33

Vão lançando-se declarações cuidadosamente lavadas com detergente neutro, não vá ofender-se alguém em Bruxelas. Muitas sílabas, zero consequências.

Gaza: Likes, Lágrimas e Lobbies

Dantes, as guerras demoravam semanas a chegar aos jornais. Agora, demoram segundos a chegar ao Instagram. A Faixa de Gaza, esse retângulo de ruínas, transformou-se em trending topic, com direito a reels, infográficos e comentários de anónimos com doutoramento em geopolítica do sofá. A guerra é feia, mas fotogénica. Explode num story, morre num scroll, renasce numa thread. O horror tem filtro — às vezes Valencia, às vezes Clarendon. E nós, espectadores de polegar inquieto, vamos consumindo fragmentos de tragédia entre um tutorial de maquilhagem e um unboxing de Diamond painting.

 Enquanto civis se enterram em escombros, no ocidente fazem-se brindes à neutralidade. Os comunicados falam de “ambos os lados”, como se houvesse simetria possível entre um míssil e uma pedra. Nas conferências, alinham-se palavras como “desproporcional”, “escalada” e “preocupante”, palavras que não salvam ninguém, mas aliviam consciências — sobretudo as que assinam contratos de fornecimento de gás natural. Vão lançando-se declarações cuidadosamente lavadas com detergente neutro, não vá ofender-se alguém em Bruxelas. Muitas sílabas, zero consequências.

Quem lucra com a guerra não quer paz. A paz é má para os negócios. Só entre 2023 e 2024, os EUA forneceram mais de 18 mil milhões de dólares em ajuda militar a Israel — o PIB da Palestina, em 2023. O resto do mundo, entre indignações ocasionais, continua a assinar cheques e a fazer vistas grossas. Curioso como se insiste na “solução de dois Estados” enquanto se financia sistematicamente a eliminação de um. É como prometer constir uma casa a alguém enquanto se lhe dinamita o alicerce — e depois dizer que a culpa é dele por não ter um solo firme. A indiferença é a arma mais letal, mas o pior é isto: já ninguém se indigna por mais de dois dias. E mesmo que dure mais, esbarra na inércia dos indiferentes. A empatia tornou-se intermitente. As pessoas dizem “que horror”, partilham uma imagem e voltam ao brunch. Gaza é hoje, como foi ontem, uma notificação que se ignora, um ruído de fundo nas playlists de café. Os algoritmos já aprenderam que a dor humana não gera retenção. Mostra-se só o suficiente para parecer informado, mas não ao ponto de perturbar o sono. E assim nos vamos desumanizando — aos poucos, em silêncio, com o conforto de quem assiste a uma série de violência psicológica… mas em streaming. E talvez o mais obsceno nisto tudo seja a facilidade com que se moraliza sobre o conflito a milhares de quilómetros. Com o cinismo de quem acha que há “nuances” em bombardear hospitais ou que há “contexto” suficiente para justificar a morte de crianças. O terrorismo deve ser combatido. Tudo é politizável. Tudo é relativizável. Até a vida. A Faixa de Gaza é hoje, mais do que nunca, um espelho. Nele reflecte-se não apenas a tragédia do Médio Oriente, mas também a falência moral de uma civilização que já só se comove quando há wi-fi.

 Epílogo:

A paz pode esperar. Há conteúdo novo no feed. Incluindo esta crónica — Raul Anis de Sousa

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