Vai Correr Tudo Bem
Há coincidências que parecem nascer com má vontade. Esta crónica, apesar de ter sido pensada e escrita bem antes, é publicada numa semana de calamidade em Portugal, num país que volta a provar que não está preparado para responder a catástrofes naturais ou organizadas. “Vai correr tudo bem” surge sempre nestes momentos. Antes, durante e depois. Como se a repetição da frase substituísse o planeamento, a prevenção e a responsabilidade. Talvez seja precisamente por acreditarmos tanto que tudo vai correr bem que nada se resolve a sério. Não há urgência quando há conforto verbal. Portugal aprendeu a sobreviver à base do optimismo automático. Resolve-se pouco, explica-se ainda menos e segue-se em frente, confiantes de que, da próxima vez, vai correr melhor. Vai sempre correr tudo bem. E é exactamente por isso que nunca corre.
Há uma frase que o português diz sempre com um ar sério, quase responsável, como quem está a cumprir um dever cívico:
- Vai correr tudo bem.
Diz-se antes de exames, cirurgias, negócios, mudanças de casa, mudanças de emprego, investimentos arriscados e casamentos. Diz-se com a mesma tranquilidade com que se fecha uma porta que ficou mal fechada.
O “vai correr tudo bem” não é esperança. É um mecanismo de defesa. É o equivalente verbal a tapar os olhos e continuar a andar. Como na famosa ultrapassagem de Ruben Barrichello a Michael Shumacher. Não resolve nada, mas alivia momentaneamente a consciência.
Curiosamente, nunca ninguém diz “vai correr tudo bem” antes de algo de algo de bom. A frase só existe antes da possível ou até, provavel queda. É uma espécie de aviso sonoro do destino, como aquelas mensagens que antecedem o impacto. Há uma confiança quase supersticiosa nesta expressão. Como se o simples facto de a pronunciar tivesse efeitos práticos no universo. Como se Deus estivesse distraído e, ao ouvir-nos, dissesse:
- Ah, eles acham mesmo que vai correr bem. Então deixem lá, não vamos ser desagradáveis hoje. Não funciona.
O português diz “vai correr tudo bem” da mesma forma que diz “logo se vê” ou “isso resolve-se”. São frases feitas de ar. Frases almofada. Servem para amortecer a realidade antes de ela cair em cima de nós com todo o peso.
O mais interessante é que quem diz “vai correr tudo bem” raramente acredita nisso. Diz porque fica bem. Porque é educado. Pior, há quem o diga a esperar exatamente o contrário.
O optimismo é preguiçoso. Não precisa de provas. Basta dizê-lo.
Há ainda uma variante mais sofisticada:
- Temos de ser positivos.
Esta frase costuma ser dita por pessoas que não estão diretamente envolvidas no problema. É fácil ser positivo quando o desastre é dos outros.
Quando corre mal, e corre muitas vezes, ninguém volta atrás para pedir desculpa à frase. A expressão sai ilesa, pronta para ser reutilizada na próxima catástrofe anunciada.
No fundo, o “vai correr tudo bem” é a forma mais educada que encontramos de dizer:
- Não faço ideia do que estás a fazer, mas não quero falar sobre isso agora.
Talvez seja por isso que continuamos a usá-la.
Porque reconhecer que pode correr mal exige coragem e dizer “vai correr tudo bem” exige apenas fôlego.
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