Gente que se visita
“Vejo, mas nada ouço. Não aguento o chinfrim. Suporto o “Preço Certo” há mais de 20 anos. Sempre foi mau. Salva-se a autenticidade do público. Portugueses reais. Parecem os familiares da terrinha, que visitamos no Natal. Gente boa que mata o seu porco quando chega a altura correta do ano.” (https://expresso.pt/opiniao/2025-10-26-as-minhas-normais-utopias-beb0a9a2)
É pena que uma escritora de mão-cheia tal como a Isabel Figueiredo se tenha agora celebrizado por um artigo que se presta a interpretações indignadas e citações descontextualizadas, mas a autora, incapaz de mudar de canal, talvez refém da TDT, tocou num nervo particularmente inflamado da sociedade portuguesa, instigando a consciência de classismo do povo, ao dizer que:
“Vejo, mas nada ouço. Não aguento o chinfrim. Suporto o “Preço Certo” há mais de 20 anos. Sempre foi mau. Salva-se a autenticidade do público. Portugueses reais. Parecem os familiares da terrinha, que visitamos no Natal. Gente boa que mata o seu porco quando chega a altura correta do ano.” (https://expresso.pt/opiniao/2025-10-26-as-minhas-normais-utopias-beb0a9a2)
Essa gente real é visitada lá na sua terrinha (e quem são esses que visitam? esse plural majestático, talvez gente postiça, não sei quem são, leitores do Expresso?, gente da cidade?, gente não visitada?, gente menos boa?, gente que vê os incêndios pela televisão, logo a seguir ao Preço Certo - Especial de Verão, e se indigna com o bom povo que planta eucaliptos e não rapa os montes?), ou como alguns dizem, a província, esse lugar onde se chega pela auto-estrada, sai-se na rotunda, apanha-se a nacional, pára-se no café onde dá bola e CMTV, bebe-se uma água a 90 cêntimos sentado numa cadeira de plástico da Sagres, ou nem isso, bom dia ou boa tarde a quem lá está a contemplar quem passa na estrada e bebe-se no carro; segue-se até à terrinha, ruas alargadas para cima das videiras dão espaço para passar o SUV, “encoste bem que passa aí o tractor”, “ao tempo que não vos via, vêm cá tão pouco”; o jantar está pronto, vitela assada morta na altura correcta, “posso comer batatas fritas, mãe?”, “vou abrir uma de verde”, “ai não pai, que faz ácido no estômago”, “a avó não vem comer?”, “está a ver o Gordo, está quase a acabar”, a velhinha podia assistir a um documentário sobre austeridade estética pós-soviética na cinematografia de Béla Tarr com a mantinha sobre as suas frágeis perninhas, educaria as massas e proporcionaria belos fins de tarde no Centro Social e Paroquial de Sanfins do Douro, mas talvez o Preço Certo seja melhor companhia e remédio para a modorra que acomete os reformados, “não dá para baixar um bocado o som?”, “ela ouve um bocado mal, não se dá com o aparelho”; Domingo à tarde, “leva mais estes tomates”, “ó mãe, já não cabe mais nada na mala”, “pronto, tu é que sabes, era para não gastares dinheiro no super-mercado”, “e acabamos por não falar das partilhas, a avó já não as faz em vida”, fecham-se as portas, diz-se adeus, “o teu pai está cada vez pior, não é que queria levar a menina a passear no trator!”, “oh, não ligues, tantas vezes andei”, “mas isso era antigamente quando andavam por aí descalços, agora é proibido. Para a próxima alugamos aí um sítio qualquer só para não dar trabalho”.
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