2026 - Odisseia no ciberespaço
Esse mesmo Odisseu, paradigma antropológico de toda a ética e política possíveis, foi deitado no divã do psicanalista, atormentado com o seu passado. A flor de lótus é hoje Prozac.
Algures no tempo, deparei-me com esta citação do escritor italiano Italo Calvino: “Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer”.
Tornaram-se clássicos ao conquistar a intemporalidade. Neles escutam-se vozes antigas de longínquos antepassados, falando-nos de modos de ser e viver de outra forma ocultados pelo ruidoso e atarefado quotidiano contemporâneo. O reconhecimento de outras possibilidades humanas engrandece-nos.
A Odisseia de Nolan calou essas vozes. Nunca se situou efetivamente na Grécia, não saiu dos EUA, geografia social e humana que é o seu referencial ético-ontológico. O filme apequenou uma narrativa grandiosa sobrepondo-a anacronicamente a referências mais ou menos explícitas à política actual através de uma constante expiação do herói Odisseu que surge como esse Ocidente que afinal é o “povo do mar” - os temidos invasores que chegam nas suas embarcações e devastam somos nós, o colapso civilizacional é auto-induzido.
Esse mesmo Odisseu, paradigma antropológico de toda a ética e política possíveis, foi deitado no divã do psicanalista, atormentado com o seu passado. A flor de lótus é hoje Prozac.
O filme alcançou a proeza de reduzir a guerra de Tróia a uma mesquinha disputa por rotas comerciais. Aquiles queria afinal cobrar taxas alfandegárias. Não tenho dúvidas de que as grandes forças mitológicas da actualidade operam nas Finanças.
Trata-se de um filme que desmistifica no sentido de remover o mito, o que está alto, não no sentido do esclarecimento, dessacraliza as personagens, despoja-as da sua riqueza, da sua universalidade - por exemplo, na ocultação do erotismo latente nas relações de Odisseu com Calipso e Circe.
A obra cedeu à pressão da função moralizadora da arte, onde tudo é política. Sendo tudo política, afirmar que tudo é política, é política. E para que haja política são necessárias posições divergentes; assim, é possível a existência de uma outra doutrina que afirma nem tudo ser política, logo uma contradição. Portanto, é possível afirmar que nem tudo é política sem fazer política. Tal é o caso da Odisseia - a grega, entenda-se - em que alguma coisa é política, outra paixão, outra húbris, outra apenas o Destino urdido pelo capricho dos Deuses.
É nesta configuração de mundo onde o humano se confronta com forças que não pode controlar, tem de sofrer, o protesto é inútil e possivelmente fatal - as estruturas que o contêm não são construções sociais, mas forças mitológicas.
Sentar uma obra no tribunal da ética é quebrar o pacto que nos permite ver para além do véu dos pre-conceitos éticos. A arte é esse fórum de intransigente liberdade.
O debate em torno desta obra foi inevitavelmente etnocêntrico, e assim tem sido desde que se instalou na praça pública um regime binário de pensamento. Alguns críticos não perdoaram um casting refém do identitarismo e as incongruências históricas dos adereços ou do barco viking - parecendo pouco incomodados com a fluência dos seus tripulantes com a língua falada no Kentucky, sendo que a única referência ao grego é na voz de um decano prostrado perante uma aldeia pilhada pelo exército de Odisseu; outros congratularam-se com a diversidade do casting.
Há uns dias, o Frederico Lourenço, tradutor da obra, alertou para o facto de Odisseu - não o Matt Damon - ser retratado no texto original ora com pele branca, ora com pele negra. Fica assim esvaziada a polémica.
É uma posição legítima exigir que uma peça de época seja absolutamente verosímil, mas creio que tal postura não responde ao chamamento do palco, do faz-de-conta que as crianças aprendem intuitivamente, como se o fingimento fosse um imperativo natural: é na plasticidade que reside a força da obra.
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