Saltar para conteúdo
Parte da Crónica: Voyeur

A Última Pessoa Normal

Escrito por: Raul Anís de Sousa • • 37 •

Numa esplanada, dois amigos concordam: o país enlouqueceu. Eles, claro, continuam normais. O narrador também — e tem razões para isso, embora não venham agora ao caso. Mas, se somos todos a última pessoa normal, quem é que perdeu o juízo?

A Última Pessoa Normal

Há dias, como habitualmente, fui tomar café na minha esplanada favorita. Na mesa ao lado, um homem de uns cinquenta anos explicava ao amigo que o país tinha enlouquecido. Disse-o com a serenidade de quem comunica o resultado de uma análise ao sangue. "Eu sou uma pessoa normal", acrescentou, "mas isto já não há quem aguente." O amigo concordou com a gravidade de um padrinho de casamento. Também ele era normal.

Isto alarmou-me. Também eu tenho começado a suspeitar que sou a última pessoa normal.

Não digo isto com orgulho. Ser a última pessoa normal dá uma trabalheira desgraçada. Obriga-nos a passar os dias rodeados de pessoas que evidentemente perderam o juízo, enquanto tentamos manter alguma compostura enquanto pedimos o café. Mas pelos vistos, não sou o último.

Ora, ninguém, que eu saiba, começou alguma vez uma frase com "Sou um tipo completamente desequilibrado, mas". A normalidade é a única qualidade que toda a gente se atribui e que ninguém consegue demonstrar. É como guiar bem ou ter sentido de humor: os outros é que não têm.

E, no entanto, nunca houve tanta gente a ver anormalidade nos outros. A esquerda acha que a direita enlouqueceu. A direita acha o mesmo da esquerda, com a vantagem de o ter dito primeiro. Os jovens não percebem os velhos, os velhos não percebem os jovens, e ambos concordam, num raro momento de unidade nacional, que o outro lado não percebe nada. Quem está nas redes sociais acha que os outros são idiotas. E têm provas. As provas, hoje em dia, são muito importantes.

Antigamente uma prova exigia testemunhas, documentos, talvez um notário. Agora basta um vídeo de quarenta e sete segundos enviado por um primo no WhatsApp.

A verdade tornou-se uma coisa curiosa. Durante séculos imaginámos que existia uma e estávamos determinados a encontrá-la. Mas isso revelou-se demasiado complicado, e então resolvemos finalmente o problema. Agora cada um tem a sua.

É muito mais cómodo.

Há a minha verdade, a tua verdade, a verdade daquele senhor que faz vídeos dentro do carro e, aparentemente, conhece os segredos que escaparam a jornalistas, cientistas, tribunais, universidades e serviços secretos.

Está estacionado em Rio Tinto, mas sabe.

Somos todos um farol aceso num país às escuras, cada um convencido de ser o único, todos virados uns para os outros, a ofuscar-nos mutuamente. Talvez seja por isso que ninguém vê nada.

Eu, naturalmente, não tenho este problema. Sou normal. Tenho excelentes razões para o ser, que não vêm agora ao caso, e uma lista curta mas sólida de pessoas que enlouqueceram à minha volta, a começar pelo senhor da mesa ao lado, que se indignou com o preço do café com uma veemência que me pareceu, digamos, desproporcionada. Mas ainda ontem dei por mim a discutir com o telemóvel, com o telemóvel, vejam só.

O amigo foi-se embora primeiro. O homem ficou, a mexer um café que já tinha acabado, com a colher a tocar no fundo da chávena. Durante um bocado ficou assim, sem ninguém a quem explicar o país. Depois levantou os olhos e olhou para mim. Foi um olhar rápido, quase tímido. Desviei os olhos. Sou normal, e as pessoas normais não falam com desconhecidos.

Comentários (0)

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário